Por um futuro tranqüilo
Como chegar à aposentadoria em grande estilo - e qual o papel das empresas nesse contexto 
Caroline Marino 
 
 

Pendurar as chuteiras. Morar na praia. Ficar de pernas para o ar. Esse cenário de vida é a meta de muitos trabalhadores após uma longa jornada dedicada ao trabalho. Mas para o tão almejado descanso não se tornar um pesadelo, poupar é cada vez mais necessário, já que, geralmente, a remuneração não é suficiente para o aposentado realizar seus planos, uma vez que o teto da aposentadoria no setor privado, hoje, é de 2.894 reais.

O advogado Wladimir Novaes Martinez, especialista em legislação previdenciária, enfatiza que as pes­soas têm de se conscientizar, o quanto antes, de que precisam privar-se de uma parte dos rendimentos para ter futuro tranqüilo, pois a cultura da aposentadoria por tempo de contribuição está condenada ao fracasso. E muitos dos aposentados de hoje não tiveram opções ao INSS para se preparar para o fim da vida profissional.

A boa notícia é que a previdência privada começou a ganhar força há cerca de 10 anos e tem atraído profissionais em busca da sonhada segurança financeira. Segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), o mercado de previdência complementar aberta encerrou o primeiro semestre deste ano com captação de 12,4 bilhões de reais, 26% a mais que o mesmo período de 2006. Nos seis primeiros meses de 2007, os planos de previdência para menores de idade cresceram 80,67%. "O sistema complementar cresceu, pois os governos nacionais abandonaram a previdência pública; sabem que ela não lhes gera rendimentos políticos, partidários nem eleitorais - só dor de cabeça", acredita Martinez.  

Mas onde as empresas entram nesse contexto? Simples. José Floro Barros, sócio-diretor da Floro Gerenciamento de Carreira, explica que quando a companhia desenvolve programas de preparação para a aposentadoria, mostra-se preocupada com o futuro de seus colaboradores. Isso gera mais produtividade, aumenta a satisfação e o respeito do trabalhador para com a empresa em que atua. "Funcionários que traçam um plano de vida e carreira conseguem manter a auto-estima elevada no ambiente corporativo e realizam o trabalho com mais motivação e foco", completa.

A vice-presidente de eventos e relações institucionais da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), Cecília Cibella Shibuya, acredita que oferecer Programas de Preparo para a Aposentadoria, os chamados PPAs, é de suma importância para o bom andamento dos negócios, uma vez que demonstra respeito por aqueles que contribuíram para o crescimento da organização.
 
Segundo a executiva, as empresas podem implantá-los por meio de cursos, oficinas e workshops que mostrem ferramentas para a elaboração de um novo projeto de vida. "O PPA orienta o colaborador a preparar-se financeiramente por meio de uma previdência privada, a rever conceitos e valores em relação à qualidade dos relacionamentos, além de estimular o desenvolvimento de novas habilidades que permitam, futuramente, uma nova fonte de renda", explica.
 

 

Vendrami: planejamento para continuar as viagens ao se aposentar
 

O administrador César Vendrami, de 27 anos, é o retrato da nova geração (que planeja, desde cedo, o futuro), e da importância da empresa na preparação para a aposentadoria. Vendrami começou a pensar no assunto há dois anos quando ajudou a implantar o programa de preparação para a carreira do futuro na companhia em que trabalha. Desde 2005, contribui para um plano de previdência privada e realiza aplicações de renda fixa e fundos de ações, além de investir cerca de 60% do dinheiro em educação. Para ele, não adianta apenas poupar em recursos financeiros e não se desenvolver pessoal e profissionalmente. "Acredito que o equilíbrio entre os aspectos financeiro, social, familiar, intelectual e cultural é o que proporciona um futuro bem preparado", destaca.  

 

 

 

Casos concretos mostram que é possível ter uma pós-carreira tranqüila, desde que planejada. Vera Lucia Galdi, de 53 anos, já se aposentou e tem hoje uma vida financeira estável. Viaja com freqüência - o que era impossível anos atrás, já que o trabalho consumia praticamente todo o seu tempo - e realiza atividades manuais, como artesanato e pintura. Além disso, voltou a estudar inglês, pois pretende atuar em consultoria ou comércio exterior (mas nada que consuma todo o seu tempo).

Vera acredita que a previdência privada é uma segurança para quem pretende se aposentar. "No meu caso, foi determinante, pois sem esse complemento seria muito difícil manter um padrão de vida estável e aproveitar o tempo livre", diz, ressaltando também que a empresa em que trabalhava foi essencial para o início do planejamento, pois sempre orientou os colaboradores sobre o assunto.

Porém, o planejamento da aposentadoria engloba outros aspectos e não se limita apenas à parte financeira (trabalhar o lado psicológico é tão ou mais importante quanto). Segundo Floro, muitas pessoas evitam falar sobre o assunto por causa da associação com perdas - de poder, de status, de prestígio -, o que faz com que muitas não se programem. "Um planejamento estruturado significa pensar a longo prazo, traçar metas e objetivos', explica.
 

 

Wladimir Novaes: aposentadoria por tempo de contribuição está condenada ao fracasso
 

Para ele, a aposentadoria deve ser encarada como mais uma etapa da carreira profissional, na qual, com a experiência adquirida durante toda a trajetória corporativa, podem-se realizar sonhos, que não puderam ser concretizados devido às longas horas de trabalho.

Cecília, da ABQV, concorda: "É de suma importância o preparo para a aposentadoria para que a fase seja vista como um período de crescimento e não de traumas e mágoas, comum há anos atrás, devido à falta de preparo e ao preconceito". Ela enfatiza, ainda, que atualmente as pessoas deixam de trabalhar em plena força produtiva, o que torna a preparação para esse perío­do, que engloba aspectos financeiros, de previdência e de relacionamento, essencial para viver com qualidade e usufruir a vida sem preocupações.

Vera Lucia, que hoje vê diversos benefícios na aposentadoria, conta que no começo foi complicado imaginar sua vida sem o trabalho. "Como tudo na vida passa, foi difícil pensar que eu não seria mais a profissional conciliadora - entre os clientes e o banco em que trabalhava. Achei que seria esquecida. Mas tive uma grata surpresa. Depois de deixar a empresa fui procurada por muitos clientes, até por aqueles de trato mais difícil, e com alguns mantenho amizade até hoje, nove anos depois."

Razões de sobra
Por que implantar Programas de Preparo para a Aposentadoria?

1 Minimiza o impacto da aposentadoria, ou seja, a ruptura com a empresa;
2 Oferece uma perspectiva positiva de vida;
3 Aumenta a satisfação e a motivação dos funcionários;
4 Sensibiliza os colaboradores sobre a necessidade de pensar na "Carreira do Futuro";
5 Estimula a integração;
6 Fortalece a responsabilidade social.